Quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

o tempo, a distância e outros pormenores

Ficámos, no carteiro, muito tempo sem publicar. Não tenho a certeza do que isso significa, para os leitores. Sei que são importantes os leitores, que também são eles que fazem este projecto, que podem criar, intervir, sugerir, mudar rumo e tema, orientação e pressupostos. Sei que diariamente, desde meados de Junho, há quem nos visite. E desde essa altura que não publicávamos. Eu nunca senti que o projecto tinha acabado, nem sequer que estava em perigo, ou em fase má. Aceito estas fases como fases naturais de um projecto que envolve pessoas. Gosto das pessoas assim, imprevisíveis, inconstantes, com defeitos e falhas, com preguiça, dificuldades e medos. Com personalidade, no fundo. E este projecto tem personalidade: as nossas, todas as três, Carol, Eliana e Nuno, mais todas as outras, dos nossos leitores/colaboradores. Agradeço as vossas visitas diárias, a esperança com que nos ajudaram a também continuar a acreditar. Abraços a todos.

Quinta-feira, 19 de Junho de 2008

Convergência das personagens

eliana mara para mim
13 jun (6 dias atrás)

Nuno,
achei uma solução excelente a de postarmos semanalmente, no mínimo uma postagem cada um mas postar em dias diferentes, daí que teremos duas atualizações pelo menos na semana. Se mantivermos assim, podemos manter também o mesmo esquema no Laboratório e ativar o trabalho.
Hoje pensei um postagem linda: não escrevi ainda, mas imaginei que a mulher índia acorda com febre, sobressaltada, porque ela sonha com o amado tenho febres na viagem. E de alguma forma ela vai "trata-lo" com as rezas que sabe fazer, como tratamento espiritual a distancia e ele melhora (e vc pode incluir isto em algum trecho seu das cartas).
beijos
Li

Nuno Ribeiro para eliana
16 jun (3 dias atrás)

ideia óptima.

o meu próximo texto vai descrever então o adoecimento dele.
e está na hora de publicar, já passaram 5 dias. entre hoje e amanhã vou publicar o próximo.

beijos muitos, muito doces.


Nuno Ribeiro para eliana
18:01 (5 horas atrás)

Eliana,

o que achas de, seguindo o pendor documental do Dogma, publicarmos esta nossa troca de mails no laboratório? penso que mesmo isto que agora escrevo e a tua resposta poderia ser publicado.

abraço.


eliana mara para mim
18:07 (5 horas atrás)

Nuno,
acho que é ótimo. só te peço para fazer por enquanto, por mim, pois estou num tempo corrido, com encerramento das aulas e me preparando para deixar tudo pronto para viajar sem problema. Pode-se editar, retirando o que for pessoal, não?
Olha, adorei o texto Febre e estou me preparando para postar outro, em resposta.
Acho que estamos encontrando soluções que nos aproximam outra vez do método das cartas, da primeira fase, de estarmos recebendo o estímulo da escrita do outro, a ponto de certas partes da narrativa nas cartas estarem presentes nos dois personagens-narradores.
Abraço
Eliana

Nuno Ribeiro para eliana
23:12 (0 minutos atrás)

vou tratar então de publicar.
neste caso não há nada de pessoal.
mas se houvesse penso que o melhor seria riscar por cima, para que os leitores soubessem que estávamos a retirar uma parte. é mais transparente assim.

abraço.

A viagem do Afonso + O papel do leitor

Nos últimos textos que tenho escrito para o Afonso, tenho notado que as coisas estão pouco movimentadas, que não tem acontecido nada de espectacular. O que me leva a não cair na tentação de provocar, ou melhor - de forçar - acontecimentos inesperados, surpresas, coisas insólitas, elementos de dramatismo ou de burlesco, é simples. Afonso faz uma viagem numa caravela, descasca batatas e lava o chão, vê água e mais água, aprende e repete as rotinas do trabalho a bordo. O que se passa de mais conturbado é no seu íntimo. A não ser que haja uma tempestade, e mesmo tendo em conta a aventura que é, naquele tempo, navegar durante semanas, as coisas são monótonas. E monótono não é sinónimo de aborrecido. A palavra significará algo como: um tom, um ritmo, um tipo de, igual a si mesmo, constantemente igual. Se achamos algo aborrecido ou não tem mais a ver com as expectativas que temos em relação a essa coisa. De qualquer forma, procuro que cada carta tenha um elemento novo, que revele mais um pouco da personagem. E há ainda vários aspectos da sua história pessoal, da sua personalidade e das suas ideias que não foram referidos. Tento que as cartas, no seu conjunto, retratem a vida a bordo segundo os olhos de Afonso, que, não nos podemos esquecer, não era marinheiro quando iniciou a viagem. Se ele se tornará marinheiro, ou seja, se ele passará a desempenhar as mesmas tarefas que os marinheiros experientes, ou se será sempre relegado a trabalhador de terceira, isso é algo que eu ainda não decidi. Quero que a minha escolha se aproxime ao que tendencialmente ocorreria na altura. Quero chamar a atenção que as caixas de comentários servem para acolher toda e qualquer contribuição dos leitores. E que, dentro do espírito do Dogma 2005, as contribuições são parte do projecto, o papel do espectador (no nosso caso tenho vindo a dizer leitor) é pelo menos tão importante como o do artista. Ambos tomam decisões, criam, envolvem-se mais ou menos em cada momento. E influenciam-se mutuamente, a cada passo. Se falo da personagem que desenvolvo é porque não está, não pode estar, tudo fechado em relação à forma como a vou desenvolver. A vossa participação é bem vinda. Como o é de uma forma mais global, para todo o projecto Carteiro. Neste momento, o ciclo é publicar no blogue, encerrar a narrativa e procurar publicar em livro. Esta dinâmica e a sua ordem podem mudar. Usem o vosso poder de leitores-espectadores, contamos com ele.

Sexta-feira, 21 de Março de 2008

A língua e as suas ficções

Foi há cerca de um mês que terminei de ler "O Remorso de Baltazar Serapião". Nesse livro, valter hugo mãe trabalha a língua portuguesa de uma forma muito interessante. Perante a impossibilidade de reproduzir o português falado na Idade Média, houve a opção de criar um discurso, maneirismos, uma forma, uma cadência que nem são o português contemporâneo nem o português de há séculos atrás. É algo novo o que valter hugo mãe criou, e que se apresenta com grande credibilidade e consistência. O escritor não procurou enganar o leitor, tentando levá-lo a acreditar que as opções formais reproduzem com uma exactidão impossível a fala dos nossos antepassados. A solução que a Eliana encontrou para o facto de ter de contar a história de uma índia de há quinhentos anos atrás, que nem falava (a princípio) português, nem sabia escrever, tamém é muito interessante. Novamente, como no romance do valter, não há nenhuma tentativa de dissimular a dificuldade, ou de mascará-la, assumindo que o leitor é ingénuo ou pouco perspicaz. No meu caso, também me é difícil construir um discurso, agregar um vocabulário, reunir elementos que caracterizem o Afonso, a minha personagem neste segundo ciclo, com credibilidade e leveza. É impossível fugir à influência de "O Remorso de Baltazar Serapião". Uma das minhas preocupações é não clonar nem mimetizar as soluções linguísticas que o valter hugo mãe desenvolveu no seu livro. Há algo que assumo, e que ouvi o valter a referir sobre "O Remorso...", numa das apresentações do romance premiado com o premio Saramago. É impossível reproduzir a língua que se falava na altura em que se passa a história. Acredito que, e de acordo com o que a Eliana já conversou comigo sobre a sua personagem índia e com o pressuposto do Dogma 2005 de que o artista é verdadeiro, a solução deverá conter essa impossibilidade declarada perante o leitor.

Quinta-feira, 13 de Março de 2008

Sincronicidade

Quando iniciei minha pesquisa iconográfica, que é um dos meus desafios, encontrei esta foto e ela me impressionou porque entre outros detalhes, os olhos desta mulher tão linda são claros, índice de miscigenação. Só que, ao ver esta imagem, eu identifiquei prontamente com Lua e deixei de procurar outras. Não quer dizer que deixarei de buscar imagens, rostos, expressões. Só que esta imagem me bastou e agora, com a postagem de Carol, vou deixar que ela permaneça. Encontrei um livro que me atraiu muito (e ainda não comprei por causa do preço) cujo título é Grafismo índigena. É uma experiência muito nova alimentar e provocar a escrita a partir de imagens. E confesso, é uma experiência deliciosa.

Imagem postada

Impossível deixar de comentar, afinal isso aqui é um laboratório!
Eliana postou uma imagem de índia que é justamente a imagem que considero meu marco zero para as criações sobre a personagem Lua. Forças conspiram favoravelmente!

Sexta-feira, 7 de Março de 2008

Os leitores na blogosfera e a escrita no Carteiro

Preciso notar aqui a felicidade que senti quando abri minha última postagem no Carteiro e encontrei uma rede de comentários. Estabeleci a escrita do segundo ciclo do Carteiro de Atlantis, partilhando o processo da escrita. E apesar de estarmos no início do processo, sinto que estou acompanhada e que é como se estivesse trabalhando numa oficina com paredes de vidro. Um aquário de escritora. Gosto desta metáfora. E agradeço aos blogueiros RM (não tem blog mas é como se tivesse), Patty e Amélie.